RETALHOS – Embarcar para a aventura II (fim)

Depois de uma manhã dedicada aos testes físicos, lá fomos para o refeitório onde registei como primeira nota e que me agradou sobremaneira o seguinte: além do regime militar dos Pára-quedistas ser duro, exigente, com uma disciplina férrea, e apesar de vivermos num período salazarista-fascista, ali respirava-se democracia. A comida que era distribuída ao recluso ou ao recruta, era exactamente a mesma para o resto das patentes, fosse comandante ou ministro.
Com o sol a pique, logo nas primeiras provas começaram a vir ao de cima algumas particularidades, sobressaindo dois grupos distintos. Os que tinham a ver com força física bruta… desde o trabalhador agrícola ao que trabalhava nas obras e até na estiva, o trabalho exigia-lhes apenas força física e pouco mais, tinham poucos conhecimentos, só a escolarização e aprendizagem até á idade escolar primária e muitos deles sem a completarem. O outro grupo tinha a ver com menos força física, mas mais destreza, habilidade e inteligência. Estes eram aqueles a quem eu chamei de putos da rua, os reguilas habituados às espertezas, aos narizes esmurrados e algumas cabeças partidas mas que levavam a melhor.
Nós, para além do Fiúza que vinha das fainas de mar sendo uma força da natureza e muito combativo, éramos putos da rua.
– Zé, já viste nas que nos metemos? São só brutamontes – disse o Jorge.
Aproveitei para lhe devolver o incentivo, com um sorriso descolorido dizendo-lhe.
– Pá, se eles conseguem nós também conseguiremos.
– Jorge onde é que eu já ouvi isto? – Disse o Fiúza com ar de gozo.
Lá fomos dando cumprimento ao programa, com corridas, saltos, passagem de obstáculos e outros que tais, onde eu me sentia como peixe na água.
Há três aspectos que me marcaram: a força física, a inteligência e a coragem.A força física
Nunca me tinha passado pela cabeça o difícil que era elevar o peso do nosso corpo, só com a força dos braços numa barra de aço suspensa.
– Tudo lá para cima minhas meninas, ou pesa-vos o rabo – dizia o instrutor.
Eu não sei o que pesava, mas subindo à força de braços, esgatanhando ou trepando eu tinha que chegar lá acima cinco vezes.

A Inteligência
Apercebi-me dessa importância numa das provas quando às tantas, gritou um sargento nada barrigudo e com um porte físico de respeito:
– Vai toda a gente junto daquele caixote tirar um par de luvas e regressar aqui imediatamente.
De terra batida onde o cascalho abundava, lá fomos nós mostrar a nossa agressividade. Tocou-me em sorte, uma rapaz alentejano que pesava bastante mais do que eu. Comecei então a enfardar porrada, mas ia sempre à luta, quanto mais enfardava, mais ganas e vontade me dava para ir para cima dele.
– Alto lá, parem! – Avisou o instrutor.
Depois virou-se para mim, talvez com um misto de pena por estar a levar uma boa dose, mas também com admiração pela valentia, e apontando com o dedo espetado para a cara do opositor, gritou-me:
– Que adianta a valentia se não está a ser inteligente.
– Vês, aqui a cara deste chaparro todo contente? É aqui que tens de lhe bater. Aqui!
– Olhos bem abertos e vai-lhe às fuças sempre que lhe vires a cara destapada.
Claro que a partir daquele momento tudo mudou, deixei de ser eu a enfardar. A partir dali, toda a valentia e confiança do amigo alentejano se esfumou, acabando por se acobardar e encolher. Isto levou a que fosse eliminado.

A Coragem
Partimos para o último teste só com treze resistentes para o temido salto da torre. Todos alinhados para ver um salto de demonstração. Quando vimos um pára-quedista subir a uma torre enorme, preso por uma corda e lançar-se para baixo… um friozinho subiu pela espinha acima não deixando ninguém respirar até a queda se consumar. Os cabos retesaram-se, a cerca de um metro do solo, levando o Pára-quedista a manter os membros completamente firmes colados ao corpo, para no momento do choque não virar espantalho e lesionar-se gravemente.
Lá fui subindo, com as pernas trémulas de “coragem”, até ao patamar superior e em posição de salto lembrei-me do conselho do instrutor de boxe: “olhos bem abertos e vai-lhe às fuças”. Ao sinal atirei-me com os olhos bem abertos para o espaço, recusando-me sempre olhar para baixo. Só houve um colega que não conseguiu saltar, já em cima da torre entrou em pânico e gritou:
– Nãoooooooooo, não consigo! Não…
De facto o temível salto da torre, mete mais respeito que saltar de um avião.
Coincidência ou não, apenas metade dos que passaram nas provas médicas foi apurada.
Foi assim que nós, os três amigos, ficámos apurados para as Tropas Pára-quedistas em 18 de Dezembro de 1969, ficando eu com o Nº 1626/69.

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One Comment em “RETALHOS – Embarcar para a aventura II (fim)”

  1. Bárbara Says:

    Olá Zé….
    Bem é so para não deixar este texto sem um comment!
    looool
    Esta mesmo espectacular.
    Beijo
    Barbara


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