RETALHOS – Incha, desincha e passa I

Depois do ataque às nossas cabeças com o barbeiro a ser o único homem capaz de elevar a sua cadeira da barbearia à categoria de um cadafalso ou mesmo à da terrível guilhotina, tal o sentimento descabelado que provoca nas suas “vítimas”, o dia a dia de uma recruta nos pára-quedistas sem ser um inferno, é sem dúvida terrivelmente duro em todos os aspectos.
É um embate tremendo esta alteração nas nossas vidas sob o ponto de vista organizacional. Quase todos os candidatos traziam expectativas erradas pelo fascínio do voo e dos saltos. Vínhamos pelo espírito de aventura e pelo deslumbramento de fazer parte de uma tropa especial, movidos por sonhos mais ou menos comuns de chegar até ao brevete, mas sem avaliar o percurso.
Regras e mais regras nos são impostas. Elas são-nos inscritas para sabermos com o que podemos contar, desde a primeira hora.
Depois de aprendermos a pôr os atacadores nas botas, a fazer as camas, a vestir, a arrumar os cacifos e com todos já fardados, ainda com os bonés de pala espetada da goma, marchando já a passo mais ou menos certo, o instrutor deu pela falta de um colega que se demorou um pouco mais na casa de banho, e logo gritou:
– Quando um falha, todos os outros pagam da mesma maneira. Dez flexões para toda a gente – enquanto cumpríamos continuou o sargento:
– Aqui senhores recrutas, não há lugar para o individualismo ou egoísmo. São uma equipa que têm de agir entre si. Por uma questão de sobrevivência e de respeito pela elite que vos espera, é assim que é e é assim que vai ser sempre no vosso futuro!

Nesta etapa, fazem-se novas amizades e cumplicidades salutares na acção e desta vez determinadas pelas alturas de cada um. O Martins (Risotas), minhoto de gema da Pousada de Saramagos, tinha mais um centímetro do que eu e portanto precedia-me na coluna. Por esse facto ele foi quase sempre meu colega de exercícios nas corridas, nas marchas e em quase tudo. Era por assim dizer o meu par.
O Risotas era a boa disposição em pessoa e daí a alcunha. Era um amigo a sério, sempre disponível em todas as situações. Devo-lhe a sua amizade e solidariedade nos momentos de maior pressão em que chegava a duvidar das minhas capacidades.
– Vamos lá Marques, esta merda incha desincha e passa – incentivava o Risotas.
Quando não o via com um sorriso malandro, era ele que estava em sofrimento e só lhe dizia:
– Vamos lá com essa merda pá, que raio de minhoto és tu? – ele esboçava um sorriso – como a dizer que não se queria dar por vencido.
Ninguém se deixa ir abaixo, mas os rostos ilustram bem o ar inexpressivo e obstinado de quem pretende vingar. O cansaço psicológico é mais duro que o físico. Estamos todos sempre na expectativa sobre o que se seguirá, a mente acaba por sofrer mais do que todo o resto.
Quando se está em formação no campo de instrução, uns arregalam os olhos para afugentar o choque resultante de um tratamento que nos escapa ao controle, outros erguem a cabeça, dispostos a não vergar. Todos compenetrados e direitos muito atentos às palavras dos instrutores que nos podem levar do céu para o inferno, em segundos, nunca se sabem as ideias que atravessam a mente dos duros e exigentes instrutores.
É tudo ou nada em termos de emoções, começa-se ali a formar o espírito de equipa, a cumplicidade com o Risotas alastra no pelotão. Tudo é novo para nós e por isso apoiamo-nos uns aos outros. Se um cai, caem todos. Se um vence vencemos todos. Na dureza dos exercícios, no peso das ordens e no imperativo das vozes de comando é este o nosso dia a dia.
A primeira semana é terrível pelo choque, pela violência no tratamento e pela dureza dos exercícios, logo se registam as primeiras baixas. Não é por acaso que nas primeiras três semanas ninguém pode sair de fim-de-semana e mesmo com essas cautelas alguns desistem, desertando para a emigração.
Os que ficam são os que aceitam com disciplina a voz rija que os dirige, bem diferente do carinho da família que ficou para trás. Estamos todos por nossa conta. Longe de casa e muito perto de descobrirmos uma realidade ainda desconhecida, boa ou má, mas que já nos marca para sempre. Integramo-nos com muito trabalho e determinação sempre lutando por vencer o medo.

(continua)
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8 comentários em “RETALHOS – Incha, desincha e passa I”

  1. Bárbara Says:

    Ola… outra vez….
    Realmente a tua crónica esta indubitávelmente fascinante..
    E uma viagem assim tão deliciosamente descrita como a tua ida ao exército,faz com que eu sinta vontade de ingressar tb!
    É pena é que lá as coisas sejam piores do que tu descreves… mais brutas, mais desrespeitosas.. Mas a tua versão é deveras mais agradável de ler!

    Aguardo a contunuação..

    PS: tuda na nossa vida realmente ” Incha, desincha e passa.” pena é as vezes faltar-nos a paciência de esperar que passe.
    Um beijo
    Barbara

  2. Paulo Vasco Says:

    Boa tarde, Zé.

    Como já referi, a sua crónica continua deliciosa.
    Por isso, continue a encantar-nos.

    1 abraço.

  3. Fernando Says:

    estou à espera do livro. Quando sai?

  4. Helena Says:

    realmente , nos fazes viver essa aventura , se assim a posso chamar , como se tivessemos a vê la em film…momentos duros , mas era para depois uma questao de sobrevivencia..
    um beijinho
    Helena


  5. Ei, Zé, o que significa ‘minhoto’?
    De resto, tudo é muito parecido com op tratamento dispensado aos recrutas.


  6. olá zé minhoto,

    vim dar-te mais um abraço,

    senti a vida militar como qualquer pai que viveu a ultramar, e dela nunca se esqueçerá,

    fica com deus

    angel

  7. MouTal Says:

    Foi giro voltar à Recruta.
    Aguardo a continuação.
    Pelo que li, promete.

  8. mlus Says:

    Olá Zé!
    Gostei de ver e de ler. Continua…Força!


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