RETALHOS – Corpos amputados II (fim)

Em Dezembro de 1961, cinquenta mil tropas indianas, apoiadas por blindados, artilharia, meios aéreos e navais, ocuparam militarmente Goa, Damão e Diu. Os 3500 militares portugueses e goeses tinham ordens de Salazar para lutar até à morte, tendo o ditador português comunicado que só esperava, como resultado do combate, “militares vitoriosos ou mortos”. Ao contrário do que se esperava, as tropas Indianas ainda se depararam com a resistência de alguns militares portugueses, nomeadamente em Vasco da Gama, onde 500 militares, fortemente armados, obrigaram as forças indianas a combater.
Com o rebentamento da guerra, nas colónias portuguesas, era evidente o apoio que faltava aos militares em situação de guerra. Não se previram situações, tais como: a morte; a incapacidade; a pensão de sangue; a trasladação dos corpos; o aprisionamento ou a captura de militares em operações; o pagamento de vencimentos: a distribuição de correspondência; as licenças de férias, entre outras. Aqueles que sofreram graves mutilações, no teatro de operações ou em acções de preparação para o combate, constituem a face mais visível da Guerra Colonial e, em certo sentido, aquela que a sociedade portuguesa tem tido mais dificuldade em encarar. Assim, se foi constituindo um exército de deficientes, que não parou de aumentar, formado por jovens que, na força da vida, se viram amputados, cegos, com doenças internas graves, doentes da mente, com futuro incerto e que ainda hoje vemos alguns a vaguear nas cidades, vilas e aldeias do nosso país, como almas perdidas sem abrigo.
Foram considerados «inválidos». Muitos deles sofreram duplamente a sua deficiência ao se tornarem, durante muito tempo, um pesado fardo para as famílias. Os hospitais militares foram, no início, para muitos um refúgio, mas também o depósito onde os corpos amputados, os homens em cadeira de rodas ou os cegos, tropeçando, se mantiveram longe da vista da sociedade, porque, oficialmente, Portugal não estava, oficialmente, em guerra e a sua visibilidade poderia motivar interrogações incómodas, para o regime, sobre a realidade do que se passava nas frentes de combate.
Estava eu a conversar com o “Risotas”, sobre a guerra e perguntei-lhe:
– “E os nossos militares deficientes, que será feito deles?”
Pela primeira vez o vi com a voz um pouco embargada:
– “Marques, nem me fales nessa merda, prefiro ficar lá de vez”. – E acrescenta:
– “A guerra é nojenta, e o que ela nos tira, quando não nos tira a vida, nunca mais devolve.”

Na retaguarda, iam aumentando os caixões, daqueles cujas famílias tinham possibilidade de pagar a trasladação dos corpos (os outros foram, durante os primeiros anos, enterrados nas zonas de combate) e os feridos, que se acumulavam nos hospitais militares que eram pequenos, incapazes e não adaptados para os feridos em operações de guerra.
Poder vir a engrossar o exército de deficientes era o medo, que muitas vezes, me roubou o sono.

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3 comentários em “RETALHOS – Corpos amputados II (fim)”

  1. Bárbara Says:

    Ola Zé…
    É triste ver o cenário da guerra como tu a descreves… a minha alma chora por dentro.
    no meu ponto de vista as baixas dadas na guerra não são toleráveis, pois a maior parte das vezes são os jovens que não estando conscientes do proposito a que se prestam quando ingressam nas forças armadas que sofrem as consequencias…
    Consequencias que se podem tornar avassaladores para eles e para os seus familiares.
    sera que compensa para uma nação ganhar uma guerra… sabendo que os alicerces dessa vitoria tem como base o sangue da bravura de tantos jovens que padeceram combatendo uma causa que não lhes pertencia.
    So espero que este teu reviver do passado sirva para avivar a memoria daqueles que combatem e nao tem conhecimento daquilo que podera vir a ser o seu futuro.
    Concluindo … jamais deve ser estruturada uma nação sobre alicerces de sangue… pois sempre sera relembrada como uma naçao sangrenta.

    Continua assim
    Barbara Duarte

  2. Mary Lane Says:

    Disse”Risotas”:
    “A guerra é nojenta, e o que ela nos tira, quando não nos tira a vida, nunca mais devolve.”
    Nada posso declarar,além do que seu companheiro declarou, nos tempos que viveram em carne,osso,sangue e alma.
    Zé,devo confessar que é a primeira vez em minha vida que acompanho um documentário sobre a guerra.(nunca antes consegui).
    Sinto muita tristeza por ver, no século em que estamos,ainda haver os que sobem ao poder e não têm a menor sensibilidade, enviando ainda homens, para serem passageiros dessa agonia.

  3. Zé Ribeiro Says:

    Inteiramente de acordo com a tua reflexão bonito de ler e triste a tentar me pôr no lugar dos camaradas vitimas!
    Mas há uma passagem onde dizes:
    “Na retaguarda, iam aumentando os caixões, daqueles cujas famílias tinham possibilidade de pagar a trasladação dos corpos”
    Esta não estava ao corrente ou não me tinha apercebido que a coisa se passava desta maneira ?
    Uma coisa já aqui escrevi, admirando-me de o porquê de uns camaradas Pára-quedistas ficarem no cemitério de Bissau e outros virem para os cemitérios para Portugal.
    Bom, a gente todos os dias aprende e eu fiquei a saber mais uma.
    Abraço


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