RETALHOS – Que o diabo leve a guerra I

As tropas estavam estacionadas no sopé da montanha. Os sete pelotões foram distribuídos, pela área de intervenção, nos povoados que formavam uma península delimitada pelas ribeiras Isna e Codes e pelo rio Zêzere. Apresentava-se imponente aquele mar de água, novidade para muitos de nós, mas que não era mais do que a Albufeira do Castelo de Bode.
Fomos alinhados na orla da ribeira de Isna onde o comandante de pelotão, em pouco mais de cinco minutos, nos deu em forma de prelecção, mas muito concisa e telegráfica, os objectivos da operação.
“- Caros soldados e futuros Caçadores Pára-quedistas” – Dizia com a voz firme o nosso sargento.
“- Imaginem-se algures no Ultramar, não direi Guiné, pois a Guiné não é isto, mas talvez no norte de Angola”.
Quando falou Guiné, olhámos de soslaio uns para os outros.
“ – Este pelotão é um pelotão de assalto a redutos inimigos, e vamos bater a zona que nos foi determinada, ao longo desta montanha. Iremos encontrar ao longo desta semana: povoações, tropa inimiga, picadas armadilhadas, emboscadas, mas também tropa amigam.”- Enquanto ia falando, com uma mão atrás das costas e com a G3 na outra, deslocava-se passando a menos de meio metro de cada um de nós, fitando-nos.
E continuando, foi lembrando alguns ensinamentos e comportamentos em situação de guerrilha, relembrando, várias vezes, a necessidade de progredir em silêncio e no material que carregávamos “pendurado” no corpo, para que não fosse a chocalhar.
“- O factor surpresa é fundamental, não podemos ser emboscados que nem uns “arre-machos”- e terminou avisando:
“- Poupem a água! daqui a três dias seremos reabastecidos, mas até lá, não sei se haverá mais água”.
De repente ouve-se o rebentamento de um morteiro indicando que tudo estava a postos e a operação “Limpeza” acabava de ter início.
Claro que era tudo a fingir, mas nas nossas mentes, estávamos na guerra e íamos de encontro ao risco.
Através de um percurso sinuoso, ao longo da ribeira, fomos encontrando velhas azenhas, mas inimigo, nem cheiro. Alguns aldeões aqui e ali, como habituados a este tipo de operações militares, sorriam como se sentissem reconfortados pela tropa amiga que os punha a salvo de algum ataque “terrorista”.
Surgiu uma aldeã, com a pele marcada pelo tempo, com a cara encovada pela fome e pelo trabalho duro e penoso que a serra lhe reservava.
“- Coitados dos nossos soldados, é p’ra isto que uma mãe cria um filho?” – Lamentava-se a velhota.

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