RETALHOS – Não sei para onde vou… mas vou ( Continua)


Como pedindo desculpas por não termos sido mobilizados para a guerra, quando na verdade, desde o primeiro dia, já sentíamos pendente nas nossas cabeças, o machado do destino que nos esperava, o oficial pára-quedista, disse em tom pesaroso, que não podíamos ser todos mobilizados para a Guiné, porque o Regimento precisava de alguns de nós por algum tempo.
“- Este gajo, não deve bater bem da bola! Fala como se estivéssemos todos com pena de não embarcar de imediato para a guerra e logo para a Guiné.” – Pensei logo.
Não sei qual a “guerra” que nos está talhada, mas o Vietname (pelo que já se sabia por ex-combatentes regressados) … não obrigado.
Ser mobilizado para o “Vietname português” era como aceitar uma punição. Era considerada uma condenação a dois anos de apodrecimento em condições piores que as de um cárcere. O risco de o regresso se fazer na posição horizontal, entre tábuas ou deixar por lá as botas era muito grande.
Não existe na Guiné formações rochosas. A cota média a nível do mar situa-se abaixo dos 40 metros e só nas “Colinas do Boé” vai até aos 300 metros de altura. No litoral, o mar invade os rios alargando-os. A sua localização entre o Equador e o Trópico de Câncer, traz consigo um calor tórrido que varrido por ventos alísios e saharianos quentes, que secam os solos e a vegetação, formam poeiras altamente perniciosas para as vias respiratórias. Se juntarmos a isto ainda as monções e as suas trovoadas, os tornados rápidos acompanhados de chuvas torrenciais e uma guerra extraordinariamente difícil, o imaginar embarcar para aquele país e guerra era por si só um pesadelo.
Na guerra do ultramar, a Guiné era a que apresentava maior percentagem de mortos em combate representando essa percentagem o dobro da de Moçambique e o triplo da de Angola. Por todas estas razões, esta fama divulgou-se por toda a população em idade de cumprir o serviço militar, tornando-se um destino quase fatídico para qualquer potencial combatente.

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6 comentários em “RETALHOS – Não sei para onde vou… mas vou ( Continua)”

  1. Jorge Martins Says:

    Como sempre os retalhos do José Marques, são uma de uma leitura entusiasmante, para quando o livro, é o que eu pergunto?
    Um abraço
    Jorge martins


  2. A ver vamos, para já não penso sinceramente nisso, nem escrevo com esse intuito. Quer O boletim oficial dos Pára-quedistas (âmbito nacional, quer a revista Viana, Social e Cultural (âmbito regional, têm vindo publicar extractos.
    É preciso não dar passos maiores que as pernas.
    Um abraço e obrigado pelo incentivo.

  3. Anonymous Says:

    Há 35 anos atrás!!!!!!!!!!
    Quantos sentimentos,angústias e receios povoavam esses jovens em serviço ao seu pais…
    Retalhos de uma etapa que jamais será esquecida!
    Ligia

  4. Ramiro Padrão Says:

    Zé Marques!
    Tens uma bela foto, que faz hoje precisamente 35 anos. É bem verdade que uma imagem vale mais que mil palavras. Toda aquela envolvência em redor dos pára-quedistas, com as janelas e varandas engalanadas com bandeiras e colchas e muita gente a aplaudir. Decerto uma grande mistura de sentimentos, já que aqueles eram os bravos soldados que iriam defender a Pátria, mas nem todos regressariam vivos ou inteiros.
    Também gostei do retrato que fazes da Guiné, mas também havia coisas boas.
    Gostei de te conhecer em Tancos.
    1 abraço do Padrão

  5. Domingos Parreira Says:

    Tens Razao aquele pedaco de terreno devia estar todo coberto por agua e assim ja livrava muitas dores de cabeca a muita gente.
    Juntando a tudo o que escreveste
    Baratas voadoras do tamanho Bois
    Foi preciso ir para a Guine para as conhecer,Agua carregada de Vermes,Candelarias que cortavam a pele por onde passasem,Mosquitos.Enfim,Terra de Maravilha aquela.Um Abraco Parreira 801/73

  6. Marina Vieira Says:

    Antes demais, muitos Parabens por este excerto muito bem estruturado e construido. A fotografia é profundamente emocinante….Parabens!

    Um beijinho muito grande da tua sempre Amiga


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