RETALHOS – O povo não queria guerra II

Regressámos à casa mãe, era assim que era denominado o Regimento de Caçadores Pára-quedistas. Ao fim de alguns dias é publicada mais uma lista de mobilização. Recebi a esperada notícia com tranquilidade onde cerca de duzentos militares foram divididos pelos 3 teatros de guerra em África. Ao pessoal do meu curso, que se tinha safo da primeira leva, tocava-lhes, agora, Angola. Ainda não era desta que dois amigos embarcariam: o Martins “o algarvio” porque estava a tirar a especialidade de tratador de cães de guerra, mas no fim do curso dificilmente escaparia e o Covilhã, que mercê da sua extraordinária força e destreza, sendo considerado o melhor soldado do curso nas provas físicas, ficaria na metrópole adstrito à área da educação física e desportiva.
A mobilização esperada desta vez também foi comigo… foi-me concedida uma licença de dez dias, de forma a poder estar junto dos meus, pois a ordem de embarque poderia surgir a cada momento. A única coisa que sabia era que ia para Angola, de avião ou de barco, mas o destino estava traçado.
Não foram férias esses dez dias concedidos, mas sim um tempo de despedida de tudo o que me prendia e do que queria levar comigo e não era só a família, os amigos e a namorada. Queria levar a essência da minha cidade e das águas do Rio Lima. Este com uma longa história profundamente interligada a uma velha lenda, sobre as suas margens. Na altura do Império Romano era conhecido por “Rio do Esquecimento”, pois os soldados sabiam que quem atravessasse as suas margens perderia “o olvido do passado e da própria pátria”, tal como refere o Conde de Bertiandos, in Lendas. Assim sendo, as legiões romanas temiam as águas do Lima e negavam-se a navegar sobre elas. Apenas no ano de 135 a.C. as tropas romanas atingiram a margem esquerda do Lima, comandadas por Décios Junos Brutos, que, empunhando o estandarte das águias de Roma, desafiou a “beleza manhosa” das águas do rio e as atravessou sozinho. Já do outro lado da margem, o comandante chamou cada soldado pelo seu nome, conseguindo assim provar às suas tropas que, apesar do fascínio do rio Lima fazer lembrar o rio Lethes, apagando a memória a quem o atravessasse, a lenda não era verdadeira. Ainda hoje, quem conhece este rio e sabe a “história” das suas margens não se cansa de enaltecer a velha lenda popular.

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8 comentários em “RETALHOS – O povo não queria guerra II”

  1. Anonymous Says:

    Dificil momento,quando realmente é certificado que a hora esta por vir……
    Tantas coisas preciosas que não pode levar junto fisicamente.
    A essencia da cidade ´o fascinio isso nunca perderia ,seria a força para momentos dificeis,e a velha lenda prevalecia.
    Belo relato,com emoção…….
    Ligia

  2. Gwendolyn Says:

    Entendo realmente o sentido de tudo o que dissestes neste relato.
    É impressionante como consegues passar a mensagem de forma tão bela.
    Obrigada mais uma vez por esta oportunidade de saborear um pouco do seu talento, e da sua sensibilidade.

  3. Anonymous Says:

    Essas partidas para Angola poderiam ser uma viagem sem regresso… como foram para tantas pessoas, fico imaginando os vossos pais… quanto sofrimento…
    Um beijinho
    Dia


  4. Dia
    Foram mesmo isso. Para muitos foram viagens sem regresso e para os que regressaram, muito coisa deixaram por lá, para alem das mutilações das minas.


  5. Gwendolyn,
    Não sei se é belo ou não, sei que são simples testemunhos que a juventude devia entender para aprender a detestar estas novas guerras


  6. Lígia,
    Sempre que nos afastamos das nossas origens, fica sempre algo de nós para trás e que nada será como dantes mesmo que regressemos ao ponto de partida

  7. helena Says:

    esses dias “de despedida” os imagino…dias que te serviram a levar contigo um pouco de tudo quanto gostas , para te dar aquela força para voltar..
    nao devia ter sido facil nem para ti, nem para tua familia e amigos , esses dias….
    gostei da lenda do rio Lima..
    um beijo

  8. Anonymous Says:

    Realmente partir e ter de deixar tudo, que nada garantia voltar a ver deve ser horrivel.
    Mas o certo é que regressaste e que nos prendas com estes textos magnificos.
    Gloria


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