RETALHOS – O povo não queria guerra (fim)

Desde puto, era ali no rio, a dois passos de casa, que ia apanhar caranguejos com uma corda, uma pedra e as entranhas do peixe pedidas às peixeiras do mercado. Precisamente no local onde viria a surgiu o pior atentado urbanístico vianense, um prédio de 12 andares. Hoje toda a população quer vê-lo em baixo para exemplo dos vindouros.
Queria transportar, na minha memória as mimosas do monte de Santa Luzia. Vale a pena subir ao topo do Monte de Santa Luzia (a cerca de três quilómetros do centro da cidade), a pé, de funicular ou de carro. Dele se desfruta uma das panorâmicas mais sublimes do planeta sobre a cidade, o rio e o mar. A cidade com as ruas e vielas sinuosas, largos e praças pitorescas, as suas muitas casas senhoriais e palacetes recordando a importância que adquiriu no século XV como porto de pesca e terra de onde saíram navios, marinheiros e navegadores para os grandes Descobrimentos portugueses do século XVI, iriam também comigo.
A Nossa Senhora da Agonia, celebrada em Agosto, atraindo multidões para assistirem à procissão, com o desfile das mulheres envergando os seus magníficos trajes típicos, os arraiais com muita música, bailes e fogo de artifício, além da tradicional bênção dos barcos de pesca seriam recordações que me acompanhariam sempre.
Já o poeta vianense, Pedro Homem de Melo, lia como quem canta este tema que Amália imortalizou:

Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana.


Levei de tudo isto um pouco, para além dos abraços dos amigos, da paixão da namorada e do amor de minha mãe.
Em meados de Junho de 1971, só a Jorgelina, uma das minhas irmãs, acompanhou-me à estação dos caminhos-de-ferro. Depois de uma despedida com dor e já com muitas saudades, com o comboio a entrar na ponte metálica sobre o rio, dei comigo, com os olhos vidrados, a fixar o lado esquerdo da linha férrea, Queria ver, mais uma vez, a minha casa que ficava ali a algumas dezenas de metros.
É muito doloroso, uma mãe ver um filho partir para a guerra. E ali estava ela sozinha, vestida de preto, acenando-me o último adeus até onde a vista o permitia. Por fim, deitou ambas as mãos à cabeça, numa atitude de desespero, por ver partir alguém que ela brotou e criou e que agora via a guerra levar. Pela primeira vez uma lágrima correu teimosamente no meu rosto. Acenei com a alma tolhida. Levei comigo essa imagem que me acompanhou sempre na guerra e para além dela.

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16 comentários em “RETALHOS – O povo não queria guerra (fim)”

  1. Gwendolyn Says:

    Gosto muito da forma intensa que escreves. Dá-me sempre a sensação de estar vivendo as situações, vendo os lugares… enfim é o que te faz realmente o grande e talentoso escritor. Vivi a grande sensação de perda da mãe… e a dor que só as mães sentem nestas ocasiões, porque soubestes descrever tão bem.

    Beijos

    May

  2. helena Says:

    das recordaçoes da tua infância passando pelos maravilhosos sitios que ja tive oportunidade de visitar Santa Luzia e Viana com suas praças lindissimas e suas casas pitoresquas, isso tudo contado sempre duma maneira muito vibrante..e enfim essa despedida que devia ter sido “horrivel”..
    momentos da vida inesquecivels, nao é Zé ?
    um beijo

  3. Fernando Says:

    onde estava eu, pá? Não me lembro de nada.


  4. Simpatia tua Gwendolyn,
    São simples memórias de um simples cidadão, que viveu uma época algo conturbada.
    Já não bastava a forma como as mães sofriam para alimentar e formar os seus filhos, para depois a guerra nos arrancar dos seus braços. Foram anos que me marcaram bastante e de alguma forma deixaram uma marca indelével na minha personalidade, pela forma intensa que foram vividos.


  5. Helena,
    É evidente que levamos sempre connosco, algo da nossa vivência e das nossas memórias vivas que são os cantinhos onde nascemos e crescemos. Coimo mãe saberás avaliar o sofrimento que é ver partir um filho para a guerra.
    Obrigado pelo apoio

  6. Anonymous Says:

    A vida poética ,cheia de encantamento,vivenciada em todos os sentidos com sabor de alegria,num cenário de explendorosa beleza natural,é substituida por agonia ,desespero e incredualidade trazida pela guerra.Dilacera o coração e alma.,de todos .
    A hora da partida,produz tanta dor como se arrancasse nossa alma.,sem saber quando e se encontraremos de novo.
    Nada mais cruel para uma mãe ,ver seu filho ir ao encontro de terrores,sem poder fazer nada e esse filho no seu desespero ,suas angústias e sem poder amenizar o coração da mãe aflita.
    Quando será que teremos a felidade de não ter mais guerra!
    Ligia


  7. Fernando,
    É natural que não te lembres destas passagens com estes pormenores, pois eras bastante novo, mas a Jorgelina e a nossa Mãe, lembram-se com certeza.
    Primeiro porque eram mais velhas e depois porque eram mulheres e como sabes as mulheres tem outra sensibilidade e sentido de protecção por quem lhe são queridos que nós homens.
    Por outro lado mãe é mãe


  8. Lígia,
    Tão bem descreveste o sofrimento de uma mãe e de um filho que sentindo-se forte e preparado para os horrores da guerra e por outro lado impotente e frágil para acudir ao desespero da mãe
    Obrigado pelo comentário

  9. helena Says:

    Sabez Zé, todos anos quando regresso de férias, nao vou para a guerra, mas também é uma “partida” , e antes também me “emprenho” de tudo quanto gosto de Portugal, de sitios, de cheiros, cores e das pessoas que me sao queridas..e quando abalo de carro, também me vém essa lagrima..
    um beijo

  10. Fátima Says:

    Ólá, Bom dia..
    Ao ler-te somos prejectados a uma tempo,a uma vida, que nunca vivemos, não conhecemos,mas por momentos estamos lá..

    bj
    Fátima


  11. Fátima,
    É reconfortante saber que quem lê os Retalhos, por momentos também se sentem parte da história e deste país que somos.
    Obrigado

  12. Jacky Says:

    porra zé fizeste-me vir uma lagrima ao olho.
    com outras palavras descreveste os sentimentos e emocoes que todos carregavamos na abalada.
    tu ainda te despediste da familia, eu nem isso me foi possivel. talvez tenha sido melhor assim e como nao tinha namorada, era a minha mae e as suas aflicoes, por me saber a ir para a guerra, que me punham aquela pedra no peito.
    nos voltamos.
    e aquelas maes de quem os filhos por la ficaram? nao foi so a angustia de meses ou anos de incerteza como tambem e por cima, a dor final e bem longa da perda.
    um abracao zé


  13. É verdade João
    São vivências semelhantes, seja a época que for e seja a guerra que for.
    Uma mãe sentir-se desventrada por lhe arrancarem os filhos já homens para uma guerra é demasiado doloroso para se poder descrever
    Foste para a Guerra, muito antes de mim, para a mesma guerra em Angola e para o mesmo quartel. É natural que muito das minhas memórias, serão reminiscências comuns aos dois e a tantos outros que por África combateram.
    Mas há que pôr cá para fora para os vindouros saibam pelo que passou esta geração.
    Um abraço

  14. Anonymous Says:

    Realmente amigo… se dizer adeus a uma terriola qualquer é doloroso, dizer adeus a tanta beleza de Viana então deve ser bem mais.
    Não tanta dor como dizer adeus aos que se ama… O certo é que estás de volta… e só eu sei o quanto isso é bom. Mais não seja para nos prendares com tantas memórias, com tantos feitos de beleza, os quais admiro demais
    Um beijo, desta amiga gloria


  15. É isso mesmo minha amiga Glória…
    Tudo o que nos rodeia, faz parte de nós, das nossas raízes.
    Mas uma mãe, é uma mãe e se a quem parte nestas circunstâncias já custa., tu como mãe saberás avaliar melhor que ninguém.
    Obrigado pelo incentivo

  16. Anonymous Says:

    Here are some links that I believe will be interested


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