RETALHOS – O embarque para a guerra II

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Na esquina virada para o campo onde os mobilizados regressavam ordeiramente e quase em silêncio, estava, na penumbra, o sargento de dia, qual malvado, qual carniceiro sem dó nem piedade a apontar o caminho do cadafalso. Era com certeza mais um sargento analfabeto, orgulhoso das divisas conquistadas só porque se ofereceu para matar pretos em África, mas desprovido de qualquer sentimento altruísta e falho de humanidade.
De forma cobarde, apontava a cada um o caminho da guilhotina que lhes ia ceifar, pela última vez, o cabelo que estava novamente a começar a crescer.
“- Filho da puta, ainda por cima um nosso conterrâneo” – não se conteve o Afife.
“- É de Viana o gajo pá?”- logo perguntou outro.
Nem respondi com a vergonha, mas todos sabiam que sim.
Naquele momento uma garrafa de cerveja estilhaçou-se na parede a poucos centímetros da cabeça do açougueiro. Sei que voou por cima das nossas cabeças e arremessada bem lá de trás como se de uma granada se tratasse. Nunca se soube quem a atirou, nem tão pouco alguém procurou saber o autor. O clima de irmandade fortalecia-se e o assunto morreu ali para todos, menos para o sargento que, cobardemente, se encolheu e não tossiu nem mugiu. Com isso, beneficiaram aqueles que escaparam da ida ao barbeiro.
Hoje, passado mais de 30 anos, esse sargento que parecia que tinha o rei na barriga com a farda e as sujas divisas, passeia sozinho. Nenhum de nós, e somos bastantes, lhe passa “bife”.
De manhã bem cedo, mais cinquenta e dois pára-quedistas transportados num autocarro da Força Aérea partiram de Tancos até à capital, mais precisamente para o Cais da Rocha de Conde Óbidos, onde nos esperava o navio “Vera Cruz”.
Até 1974, o mar era a grande via de ligação ao império. Mais de 90% da carga e de 80% do pessoal metropolitano empenhado na guerra tinha sido transportado em navios. Os paquetes mais requisitados na ligação a África foram o Vera Cruz, o Niassa, o Lima, o Império e o Uíje. O Niassa foi o primeiro paquete afretado como transporte de tropas e de material de guerra, por Portaria de 4 de Março de 1961, mas seria o Vera Cruz a fazer mais viagens, chegando a realizar 13 num ano. Em 1961, efectuaram-se 19 travessias em nove paquetes em missão militar e o ritmo aumentou à medida que crescia a força expedicionária em África.

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3 comentários em “RETALHOS – O embarque para a guerra II”

  1. Gwendolyn Says:

    Uma guerra, uma oportunidade de poder nas mãos de pessoas que aproveitam para se mostrarem como verdadeiramente são, e os mesquinhos e cruéis são os que mais se revelam nestas circunstâncias.

    beijos

    May

  2. Anonymous Says:

    UMa pessoa desprovida de um minimo de sensibilidade,e pobreza de alma,se agarra na importância da maldade.Vergonha!
    O lançar da garrafa, desabafo da dor e revolta.
    A irmandade ,é a força para poder aceitar a realidade.
    Ligia

  3. Anonymous Says:

    O migo há HOMENS, Homens e homens, e com muito respeito pelas fardas, acho que elas têm o dom de fazer subir galardões.
    Jinho
    gloria


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