RETALHOS – A Viagem (II)

…/…

Aos praças, como eu, e aos milicianos, a todos era imposta a guerra. Em alternativa tínhamos a deserção que tinha como consequências nunca mais poder pisar solo pátrio e ter de deixar para trás as famílias, cuja maioria era sustentada com os nossos pobres salários. A Polícia Politica (PIDE/GDS) a rondar as casas de cada um, incomodando as pobres famílias mercê dos bufos que, a troco de uns miseráveis tostões, informavam a PIDE de tudo o que lhes parecia suspeito. Com estes condicionalismos, num país em ditadura, só nos restava dizer presente e irmos para a guerra.
Não era uma questão de patriotismo, heroísmo ou cobardia, mas simplesmente os condicionalismos do país.
A vida a bordo de um navio com mais de 3000 militares alojados, cuja lotação em condições normais era cerca de metade, rapidamente se transforma em rotina e cansaço.
O Martins, o magrinho, sempre interessadíssimo pelos pormenores nunca tendo estado tão perto de tanta coisa desconhecida, fazia as suas habituais visitas ao interior do navio e não se cansava de dizer:
“- É espantoso o número de coisas que não sabia e que não se vêem do lado de fora. Estes barcos têm de tudo, sabiam?”
Ao fim do segundo dia a bordo, pelo meio da tarde, avistava-se pela primeira vez a Ilha da Madeira sobre um céu quente, a beleza de um postal ilustrado. Tinha aproveitado para escrever umas cartas para casa, ainda a bordo, pois tinham-nos dito que sairíamos por algumas horas e poderíamos enviá-las da Madeira. Os mais afoitos saíram até onde lhes era permitido, o cais. Parece que tinham medo que alguém, à última da hora, pensasse em fugir à guerra. A maioria nem saiu do barco debruçando-se sobre a borda falsa do navio vendo e deliciando-se com aquela beleza para nós nunca vista.
Tocou a sirene do navio, subiu-se o portaló e depois da contagem do pessoal, o Vera Cruz arrancou em direcção à guerra prometida. Um navio cheio de milhares de jovens feitos homens à força que nem tiveram tempo de o ser, jovens feitos homens para matar, sem tempo para pensar o seu futuro, sem outra liberdade que não a de tentarem cumprir o seu destino programado por outros.
Os militares têm sempre como referência a disciplina e a hierarquia. Nesta viagem pelos mares do atlântico, por ter o número mais antigo entre os meus companheiros de armas, acabo por ficar por eles responsável, como cabo dia, num dos nove dias da viagem.
Nesta viagem rapidamente se instalou a rotina. As noites eram o prolongamento dos dias de batota onde a lerpa e a vermelhinha pontificavam. O “vício” era tal que os mais embrenhados no jogo raramente conseguiam ir tomar o pequeno-almoço. Eu, como tantos outros, não falhava a este “requinte” que nos era servido pelas sete da manhã, hora a que a lerpa ainda não tinha acabado para muita boa gente. Ocupávamos as restantes horas do dia com as idas ao bar e ao cinema que funcionava na coberta superior, para além das refeições que nos eram servidas em pratos ensaiando umas valsas que só os rebordos das mesas evitavam males maiores.

…/…

continua

Anúncios
Explore posts in the same categories: ... da Guerra

6 comentários em “RETALHOS – A Viagem (II)”

  1. Gwendolyn Says:

    Um texto escrito com a arte que escreves é realmente um deleite prá mim lê-lo, mas, sobretudo é um aprendizado de lições realmente muito importantes com o conhecimento desta realidade a que são impostos os jovens numa guerra, e que os leva, sem dúvida a um processo de transformação pessoal, por diversos caminhos determinados pela capacidade de cada um em assimilar e elaborar esta realidade.
    Só me cabe aqui agradecer a Deus e a você, Zé por ter a oportunidade de ter este conhecimento.

    beijos

    May

  2. helena Says:

    ola Zé !
    este testo teu me faz relembrar jovens de 17, 18 anos que tavam em França e foram ” para a guerra” , justamente como dizes para poder pisar o sol português e poder visitar a familia mais tarde…
    imagino esses jovens todos que ao sair da aldeia vêem tanta coisa nova, foi uma abertura sobre o mundo, pena que fosse a caminho ” da guerra”..
    quando falas daqueles viciados na lerpa e outros jogos, isso tb me faz relembrar uma pessoa que foi assim até Moçambique..
    Acho, que o mais terrivel nessa epoca tao pertinho ainda de nos era os “informadores” que faziam queixe a PIDE..e claro esses jovens que “tinham” de ir para a guerra sem ter escolhido, como dizes tb : sem outra liberdade e destino programado por outros..
    parabens pelo teu post Zé !!!
    um beijo

  3. Anonymous Says:

    Como essa viagem e outras a caminho da guerra,destruiu o sonho,e o caminhar de tantos jovens e suas familias.
    A desconfiança,o medo fazendo parte de várias familias.Tudo em nome,de uma ditadura.
    O pensar congellado ,diante a incapacidade de mudar o destino.
    Quando surge ,a beleza da natureza é uma dádiva,uma arrebatamento de felicidade,que por uns instantes faz se esquecer para onde vão.
    Cada um ,ao seu modo tenta preencher os pensamentos,com descobertas.
    Como tudo isso ,poderia ser evitado
    LIgia

  4. Lina Says:

    Penso que seria boa ideia escrever um livro sobre a tua aventura, que afinal foi a aventura de tanta gente!
    Bjokitas grandes, Lina.


  5. Excelente o seu Blog , José Marques , ainda por cima muito interventivo , vou passar por ele
    várias vezes .

    A minha Família , Viajou muitas vezes no Vera Cruz , antes , bem antes da guerra do Ultramar , lembro-me muitas vezes de ir ao
    Porto do Rio de Janeiro esperar a minha Avó ou algum Tio .

    Continue no bom trabalho !

    E outra vez obrigado pela atenção do Assunto Poema Metade , de forma alguma precisa de pormenorizar.

    Oswaldo Montenegro declama o poema
    há 20 anos e é natural que esteja divulgado e associado a ele e , diga-se de passagem fez uma excelente interpretação .

    Bom trabalho !

    Quando eu tiver material histórico do ultramar ( Histórias pertinentes lhe envio ) só um tio meu esteve em Angola , Jamil Sampaio Natural de Valpaços , falecido a 5 anos .

    Mauro Burlamaqui Sampaio

  6. CAVALHEIRA Says:

    Belo texto; de fato
    merece ser transcrito para
    um livro.
    Atenciosamente
    : ♥ ♥ ♥
    *´¨)♥ ♥ ♥
    ¸.•´¸.•*… ¸.•*¨)
    (¸.•´ (¸.•` * *´¨) ♥ ♥
    ♥ ♥ ♥
    ENTENDI
    Que quando sofro eu aprendo
    Que a dor me ensina a viver
    Que a vida é um lindo caminho
    Ao qual iremos crescer
    ♥ ♥ ♥ ♥
    BUSCA A TI MESMO SEMPRE,
    E TUDO NESTA VIDA
    VIRÁ A TEU ENCONTRO, ESTE
    É MEU EXERCÍCIO DIARIO….
    Muita paz, luz
    e tranquilidade!
    ♥ ♥ ♥
    *´¨) ♥ ♥
    ¸.•´¸.•*… ¸.•*¨)
    (¸.•´ (¸.• LUZ EM SEU CAMINHAR…
    *´¨)♥ ♥ ♥
    ¸.•´¸.•*… ¸.•*¨)
    (¸.•´ (¸.•` * *´¨) ♥ ♥


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: