O bom, o mau e o vilão

“A crise acabou!”, diz o bom, e o país (uff!) respira fundo. Quando digo o país falo do país que paga a crise, e não do país que engorda com ela, que esse deve ter ficado justificadamente alarmado com tal notícia. Mas, logo depois, que não, que foi engano, que foi um desabafo, que foi má interpretação. E entra em cena o mau. A electricidade irá aumentar 15,7% e a culpa (secretário de Estado da Indústria dixit) é”vossa”; e a água, e a culpa é, obviamente, “vossa” (isto é, nossa, dos funcionários, dos professores, dos juízes, dos militares, dos reformados, dos doentes, dos idosos); e os transportes; e os medicamentos; e o pão nosso de cada dia nos tirai hoje; até as SCUT, coroa de glória da campanha eleitoral do PS, irão ter, afinal, portagens, ainda e sempre por nossa culpa, nossa tão grande culpa. Nesta altura a banda sonora sobe de tom e surge, enchendo façanhudamente o ecrã, o Orçamento de Estado para 2007. Alinhados contra o “paredón” os suspeitos do costume (porque a culpa é, evidentemente, deles) os pensionistas, os doentes, os deficientes, os jovens, outra vez os funcionários. “The end”. Na plateia, aqueles que não entram neste filme, nem entraram no anterior, aplaudem (basta ler os jornais económicos) entusiasticamente.

In JN 

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3 comentários em “O bom, o mau e o vilão”

  1. João Says:

    Por incrivel que pareça, efectivamente a culpa é “nossa”. A “culpa” éde quem ao longo destes trinta e tal anos tem colocado nas cadeiras do poder, trafulhas!
    O mais grave, é permitirem que se diga que o governo foi legitimamente eleito, o que é uma mentira descarada! O que as pessoas elegeram foram os deputados da Assembleia da República! Logo, a legímidade governativa – ainda por cima quando desrespeita os cumpromissos assumidos em campanha eleitoral -, pode e deveria ser posta em causa. O problema é que as pessoas vão-se acomodando, e os (des)governos agradeçem.


  2. O ser humano é mesmo o mesmo em todas as partes do mundo, não é verdade? Guardadas as diferenças peculiares a cada país, o mecanismo é sempre o mesmo, e já o reconheço muito bem.
    Parabéns pelo texto.

    Beijos

    May

  3. helena Says:

    A culpa tem ser de alguém, e esses senhores nao vao dizer que se enganaram nas contas, nas decisoes, é muito mais simples fazer crer o povo que ele é culpado, assim continuera a pagar sem dizer nada…isso é uma boa doutrina…
    Mas o povo também é um pouco culpado, é ele que vota o nao vota, Portugal nao é uma ditatura, acho eu…
    bjos


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