Sinto-me envergonhado

Eu estive lá (na guerra) e sinto-me envergonhado pela forma como a Pátria trata os seus melhores filhos

 

Peditório para resgatar militares

Homenagem aos mortos da Guerra Colonial, em Tancos, foi marcada por crí­ticas ao Estado português Nelson MoraisPinto de Albuquerque, ex-pára-quedista que arriscou a pele na guerra travada na Guiné Bissau, não estava a gostar do rumo da conversa, sobre a forma de reunir 25 mil euros para resgatar os restos mortais de três companheiros sepultados, em campo aberto e envoltos em lençóis, na antiga colónia. E levantou-se “O Estado português não pode, de maneira nenhuma, admitir um peditório, para que os seus filhos que tombaram em campo possam regressar a casa!”, atirou, emocionado, Albuquerque.

O refeitório da Base de Tancos, onde estavam reunidos mais de cem ex-combatentes da Companhia de Caçadores Pára-quedistas n.º 121, rebentou em palmas. Quem as bateu, porém, logo foi chamado à realidade “Passaram-se 33 anos e os nossos companheiros continuam lá. O Estado, até hoje, esteve-se marimbando!”, lembrou um dos antigos militares, para quem mais vale avançar para a campanha de angariação de fundos, lançada pelo jornal de Cantanhede Aurinegra (um dos sepultados era deste concelho), do que esperar pela boa vontade do Governo.

É que o problema já foi colocado ao Ministério da Defesa, por Manuel Rebocho, sargento de outra companhia de pára-quedistas enviada para a Guiné. “Atiraram-me para a Liga dos Combatentes, que também gostava de trazer os nossos companheiros, mas diz que não tem meios”, explicou Rebocho. O ex-militar que, ao fazer uma tese de doutoramento, sobre “Sociologia da Paz e dos Conflitos”, descobriu que três “páras” e cinco soldados do Exército sepultados em Guidaje, perto da fronteira com o Senegal, nunca haviam sido trasladados para Portugal.

Além de criticar a ingratidão do Estado, Rebocho avisou “Os pára-quedistas têm uma máxima que diz que ‘ninguém fica para trás’, e, neste caso, ficaram… Ou os pára-quedistas resgatam os três homens, ou tiram a frase da sua ideologia”.

O capitão que comandava a Companhia 121, Almeida Martins, não teve tempo para participar na discussão sobre a trasladação dos soldados, por “razões familiares”, e só assistiu à homenagem aos mortos. No final desta cerimónia, não gostou que o JN lhe perguntasse se a referida máxima fora violada. “Os pára-quedistas não deixaram um homem para trás! Aqueles três foram enterrados num cemitério improvisado, mas não ficaram no campo de batalha”, sustentou Martins, hoje general.

Dois dias após a fatal emboscada da guerrilha do PAIGC, a 23 de Maio de 1973, os três cadáveres já estavam em avançado estado de decomposição, devido às altas temperaturas que se faziam sentir. Tendo sido, por isso, enterrados em terra de ninguém, Rebocho lamenta que a Força Aérea não tenha voltado a Guidaje para os recuperar. “Os Fuzileiros e os Comandos não deixaram lá ninguém”, comparou.

Ficaram lá muitos mais

A trasladação dos páraquedistas José Lourenço para Cantanhede, de António Vitoriano para Castro Verde e de Manuel Peixoto para Vila do Conde só depende dos contributos depositados numa conta da Caixa de Crédito Agrícola de Cantanhede (NIB 0045 3020 40207967255). A operação está programada, com o apoio de investigadores da Universidade de Évora, e pode realizar-se já em Fevereiro. Porém, a dimensão do problema dos combatentes da Guerra Colonial cujos corpos nunca regressaram a Portugal ultrapassa, em muito, aqueles três casos. Mesmo em Guidaje, a localidade da Guiné onde foram sepultados os três pára-quedistas, estão “muitos mais” corpos de ex-combatentes, notou ontem o general Almeida Martins, referindo a existência de mais cemitérios improvisados noutros antigos quartéis guineenses. E o problema, afectando, sobretudo, militares do Exército, estende-se às outras ex-colónias. O sargento Vilela Antunes, que experimentou a guerra em Angola, Guiné e Moçambique, não há muito tempo visitou, no último país, um cemitério, de Mueda, onde há perto de cem campas de soldados portugueses, cobertas de capim com mais de um metro de altura, contou.

Anúncios
Explore posts in the same categories: ... da Guerra

7 comentários em “Sinto-me envergonhado”

  1. esmeralda Says:

    Estou chocada!! Nao fazia ideia disto…

  2. Silvia Says:

    Olá Meu Amigo

    Tens razão em sentir-se envergonhado, mas não é só em teu país que as coisas acontecem desta maneira
    Os governantes deveriam ir as guerras, ao menos por poucos minutos para darem valor aos soldados que mandam para lutar muitas vezes por causas mesquinhas e egoistas
    Um beijo gde, linda materia, apesar de lamentar os fatos, mas vc sabe como ninguém expressar estes sentimentos
    Parabéns mais uma vez
    Tenha uma linda semana

  3. Maria Says:

    Olá, meu amigo
    Como sempre trazes ao nosso conhecimento algo que nos faz pensar como é possível que o nosso Estado se esqueça tão facilmente de quem lutou pela Pátria e por ela perdeu a vida.
    Como sempre adorei o que escreveste,
    Como sempre soubestes pôr nas tuas palavras tudo o que sentes e transmitir esses sentimentos a quem lê,
    Um beijo, e continua a contar-nos o que se passa com aqueles que lutaram por nós todos, como é o teu caso, embora lamente que que as noticias nem sempre sejam as melhores.
    Até á próxima, um beijo

    Maria
    M

  4. ligia Says:

    VALOR,DIREITO.HOMENAGEM E RECONHECIMENTO,A ESSES JOVENS QUE PERDERAM A VIDA DEFENDENDO SUA PÁTRIA.
    iNADMISSIVEL , E REVOLTANTE .qUE ESSE ERRO,SEJA LOGO CORRIGIDO.
    lIGIA

  5. Helena Says:

    é verdade que é chocante…este governo nao tem nenhuma delicateza, mesmo por esses jovens que deixaram sua vida pela a patria.
    Durante a primeira guerra mundial, ainda nao tavas nascido, eu tb nao, muitos portugueses vieram combater o lado dos franceses..ainda hoje existe em Belfort, um grande cemitério onde estao enterrados so soldados portugueses..andei la..e é muito emocionante, ver aqui por estas terras de França o nome de tanto joven que aqui deixaram a vida para ajudar a libertaçao da França…
    Minha admiraçao para todos que meterem, continuam a meter sua vida em perigo para a Paz..
    um beijinho Zé

  6. CARIA rAMOS Says:

    Olá, eu foi há um ano a NY, e gostei da cidade e senti-me mais segura lá, e éramos 2 mulheres, do que em Lisboa.

    Mas tenho pena de ver um buraco, que tiramos fotografias que para muitos de nós a nossa vida mudou apartir dessa data, gostaria de ter visto a vista do último piso, mas quem vai visitar a estatua da liberdade, e quando está no barco, mesmo que não tivéssemos estado lá parece que falta algo, e não estamos a ver o buraco,( que +- o tamanho do jardim do parque Eduardo VII).

    Passaram cinco anos, e perdemos tempo a ver todos os canais a falar daquilo, a tristeza daquela gente , que tb podia acontecer a nós.

    Agora pergunto, os combatentes da guerra colonial, onde estão eles, a suas famílias, como sobrevivem.

    Sim o meu pai morreu faltava um mês para eu nascer, nasci em angola. Como as vezes digo, foi em matéria prima e vim em produto acabado. Por direito eu e a minha mãe inicialmente tivemos pensão preço de sangue e de sobrevivência. A minha mãe ficou viuva com 22 anos e voltou a casar passado 11 anos. Logo a pensão foi toda para mim, a guerra começou em 1961 e acabou 1974, porque há filhas de combatentes falecidos em combate, e outros não, que por terem nascido 1 ano antes de mim, ainda recebem as 2 pensões, tem assistência da tropa, são funcionarias publicas, tem filhos vivem com juntas com pai dos filhos, mas porque o Bi dizer solteira dá o direito a ter as mesma regalias. HÁ FILHOS DA GUERRA E ENTEADOS NA GUERRA, eu quando nasci já tinha direitos, muitas talvez só tiveram depois da guerra acabar. Assim o estado se calhar poupava umas croas, porque eu sou do tempo de 1º ir buscar o recibo, e levar ao presidente da junta de freguesia, para que eu e a minha tinhas-mo bom comportamento moral e cívico. Prova de vida e agora já não fazem nada.

    As promessas que dão ao ex-combatentes para receberem mais votos, e depois passam para o caixote do lixo. ( mas se quiser saber mais eu terei muito gosto em contar ).

    Não é só fazer um monumento, não é uma coroa de flores, não é um almoço do batalhão, porque durante 37 ninguém veio ter comigo e perguntar como estás, e agora são todos camaradas e o teu pai era um gajo porreiro. E chegarem a ti, abrasarem e dizer que tive com o teu pai antes falecer as as suas palavras foi” dá um beijo quando a vires a minha filha”.

    O meu pai foi o patrono do último curso de sargentos dos pára-quedistas, queriam que nós fossem lá e fomos. Mas para quê, para eu chorar por uma pessoa que nunca me deu um beijo, um abraço, e um colinho.

    Estamos a perder tempo com a realidade dos outros que nos afectou economicamente, mas a historia é deles não é nossa.

    Nos temos ex-combatentes com graves problemas de pós guerra, sabe o que matar por matar porque foi para isso que o ESTADO mandou fazer, para depois ser dado como foi dado, e para alguns terem os diamantes e nos as dividas. POVO IRMÂO. Uma PORRA.

    Vamos ser mais patriotas e olharmos pelos NOSSOS, que ainda hoje são mandados para a guerra que os outros fizeram.
    1:27 PM, Setembro 14, 2006

  7. vasco santos Says:

    olaq amigos, fui combatente(?) numa companhia de intervençao, onde assistimos
    senhores como Marcelino da mata e, outros…para fazerem operaçoes. diziam ninguem
    fica para tras……….. estamos a falar de tres e, os restantes??????????????? que governo? que autoridade? e, quem somos nos para ao fim de 35 anos andarmos a rebuscar……..


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: