Um conto de Natal

Era uma vez…

Como todas as histórias, também começa por era uma vez uma menina chamada Maria do Amparo, que vivia numa pequena aldeia longínqua e onde pairava um odor a fumo nas ruas gélidas e lamacentas. As montras e as luzinhas do Natal faziam apenas parte do imaginário colectivo. A luz forte era a chama que, continuamente, crepitava nas lareiras.

Sempre alegre e bem disposta, a pequenita passava o tempo a cantarolar e quer nos invernosos dias, quer no calor abrasador do Verão, corria e saltava, descalça por aqueles caminhos térreos sem se queixar, pois os sapatos que tinha era para ir à missa ao domingo e para os dias de festa.

As suas brincadeiras preferidas eram a construção de casinhas com pedrinhas, paus e ervas que encontrava nos caminhos; além disso adorava ficar tempos sem fim a apreciar o corre-corre desses bichinhos minúsculos e pretos que numa grande azáfama faziam as delícias da pequenita, as formigas.

Não tinha bonecas pois a única que o pai lhe dera e que repartia com a irmã, tinha-lhe estragado o Joãozito, quando brincava com uma fisga, tentando acertar na Joaninha (nome que dera à sua boneca).

A mãe, a jovem Eduarda era ainda menina e moça com quinze anos de idade quando casou com um rapaz de dezoito.

Poucos dias depois de a Maria do Amparo ter nascido, o pai, o António, rapaz aprumado e lindo de olhos azuis, foi chamado a cumprir o serviço militar, obrigatório nessa época, para “defender aquelas que consideradas as Colónias Portuguesas de Além-mar”. Tocou-lhe a Índia para onde foi por mar e onde chegou cinquenta e dois dias depois.

Tempos difíceis, de muita pobreza, em que não havia liberdade de expressão e estudar era coisa daqueles que tinhas “posses”, o que não era o caso desta família.

Com o Antonio na tropa e com duas filhas para criar, a Sra. Eduarda era obrigada a trabalhar muito para o seu sustento e para terem algum conforto.

Ela ia para a apanha da amêndoa, para a vindima e, no rigoroso Inverno, ia para a monda e para a apanha da azeitona e tudo mais que ela pudesse fazer. Levando consigo a maior parte das vezes a pequenitas, agachadas junto de alguma fogueira que lhes aquecesse um pouco o narizito e os deditos roxos, da geada.

Como elas eram as luz dos seus olhos, ainda lhe sobrava tempo para, com qualquer trapinho confeccionar a roupa que lhes vestia, sempre de igual, como se de duas gémeas se tratasse.

Chegou mais um Natal em que as três se sentaram em frente à lareira, com o prato no regaço, a comer as tradicionais batatas com couves e bacalhau e um pouquinho de arroz doce feito de propósito para essa ocasião.

Havia também um queijo grande, que a Maria do Amparo lembra sempre como um dos melhores petiscos. Esse fora-lhe dado pela tia Alice queijeira que, sabendo que o rapaz andava lá fora a lutar pela Pátria e os cobres não abundavam, de vezes em quando lhes fazia uma visita levando um ou outro miminho. No tempo dos requeijões eras as cafeteiras de piralho que elas sorviam deliciadas num abrir e fechar de olhos.

Mãe e filha foram à missa do galo, passaram pela fogueira de grandes troncos que era hábito fazer-se na noite de Consoada no largo em frente à capela e que ardia durante muitos dias, por vezes até ao Ano Novo.

Já em casa e depois de porem os chinelinhos de agasalho junto da chaminé, dormiram e sonharam com o Menino Jesus. De manhã, aos saltos lá foram elas espreitar, encontrando no chinelo alguns bombons, daqueles que custavam meio tostão e com eles tinham também um par de meias ou um lenço.

Contentes com o que tinham encontrado, foram ter com a mãe e encheram-na de carinhos, parecendo adivinhar que o pensamento da Srª Eduarda estava muito longe, compensando-a assim pela saudade que lhe ia na alma…

Estavam as três mulherzinhas naqueles enleios maternais quando ouviram bater à porta. A Maria do Amparo, que era a mais traquina, saltou da cama e foi abrir. Embora a mãe sempre lhe recomendasse que não se devia abrir, sem primeiro perguntar quem era, num ímpeto escancarou a porta pois o coração parecia saltar-lhe do peito e com os olhos muito arregalados, ficou estarrecida, porque à sua frente viu a melhor prenda de Natal que podia receber. O pai, que era dela, mas que só conhecia por fotografias, estava ali, não era um sonho e como se ele nunca tivesse estado ausente a pequenina saltou-lhe para os braços e disse-lhe:

– Pai quero pão e olha que já não tenho a boneca que me mandaste!

Como uma grafonola não mais de calou, enquanto sentados à lareira, desembrulhavam alguns pequenas lembranças que o António tinha trazido, incluindo um pequeno camelo de pele que ela jamais esqueceu.

Mil vezes, embevecida e com os olhos marejados com uma lágrima, contou aos netos e bisnetos, que muito atentos e interessados a escutavam, a história em que o pai, que não conhecia, mas que ela sentia ser seu, regressou da tropa para tornar aquele natal, o dia mais feliz da vida dela…

Assunção, uma amiga

 

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9 comentários em “Um conto de Natal”


  1. Olá Zé.

    Lindo e comovente este conto. Mostra o que existe de real e tocante para a alma.
    As coisas simples e essenciais, ligadas ao afeto, ao carinho, à família, isto sim nos preenche e nos deixa felizes, e nesta época do ano, aflora-se ainda mais no que chamamos “espírito do natal”.

    Beijos

    May

  2. Silvia Says:

    Boa Noite!!!

    Vim deixar meus votos de Boas Festas e dizer k tudo k
    escreves é bom demais de ler e aprender
    Beijos

  3. Sónia Says:

    Uma belissima história que não poderia deixar de comentar… A dorei.

    Aproveito para te deixar um beijo de Feliz Natal e que o Ano Novo te traga tudo aquilo que desejares.

    Um beijo
    Sónia

  4. Sousa Says:

    Uma historia que abana os tradicionais contos de embalar. Ela narra em poucas e lindas palavras todo o drama de uma época.

    Um conto lindo que comove os corações mais duros e faz por certo pensar aqueles que nunca tiveram contacto com a realidade mais crua da vida.

    Parabéns , gostei do que li.

  5. mlus Says:

    Lindo conto este. Hoje, o Natal é cada vez mais embrulho e menos lembrança. Seria bom que pudessemos recordar o Natal, por todas as coisas boas que nos acontecem e não pelo consumismo.
    Continua a escrever, adorei o conto.

  6. assunçao Says:

    oi zé espero que estejas a passar um bom natal e que o novo ano que se aproxima traga tudo o que tu desejas pois bem mereces. Tenho lido os comentários ao conto de natal, os quais me deixam bastante comovida.
    jinhos da amiga assunçao

  7. castelar Says:

    este conto condiz com o nome de quem o escreveu. parabéns

  8. esmeralda Says:

    Adorei este conto de Natal Assunção! Enquanto o lia, conseguia imaginar todo o ambiente que o conto retratava. Tocou-me… comoveu-me e por isso eu adorei!
    Quando lemos algo que nos comove…nos emociona…bem!!! Obrigada por partilhares este conto tão bonito!
    Beijinhos embora não te conheça!

  9. assunção Says:

    um beijinho para todos em especial para o zé que me deu a oportunidade de colocar aqui o meu conto de natal e depois para a esmeralda que embora não me conhecendo também me enviou beijinhos


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