RETALHOS: A chegada e a ida para a guerra (II)

…/… 

Acordei dos meus pensamentos, novamente, com a voz do graduado:

“- Foi naquela fortaleza, em Março de 1961, que foram alojados os primeiros pára-quedistas enviados para Angola para suster a sublevação, proteger as populações ameaçadas, limpar itinerários e libertar pequenas populações.”

Como a querer-nos preparar para o que nos esperava (não era nem de perto nem de longe, uma visita de estudo às belezas destas paragens), acrescentou:

“- E foi nessas primeiras operações ofensivas, em Abril de 1961, que as Tropas Pára-quedistas sofreram o seu primeiro morto em combate: Soldado Pára-quedista JOAQUIM AFONSO DOMINGUES”.

 Dez anos depois, estava eu, com os meus companheiros de jornada, rendendo outros combatentes desta guerra que ainda durava e parecia não ter fim.

Foi rápida a viagem até Belas. O quartel do Batalhão de Caçadores Pára-quedistas nº 21 (BCP 21) era a mais bela Unidade das Forças Armadas Portuguesas e considerado, por muitos, o melhor quartel de África.

Logo, fomos distribuídos pelas três Companhias de Combate ali estacionadas, pois era de combatentes que esta “leva” tratava e não de pessoal de apoio, apesar de este ser sempre necessário.

Foi quase um começar tudo de novo. Embora muitos de nós já tivéssemos mais um ano de tropa e na metrópole fossemos considerados “velhinhos” e, principalmente os militares mais novos, nos olhassem com respeito e alguma subserviência, aqui acontecia o inverso. Víamos chegar do mato (da guerra), quase dia sim dia sim, pára-quedistas cansados, sujos, esfomeados, mas valentes. De nenhum se ouvia um queixume que fosse. Não que tivessem medo dos superiores, mas porque já tinham interiorizado que tudo o que aprenderam, todas as privações e humilhações sofridas, na preparação para a guerra, fizeram deles homens mais duros, mais viris e melhores preparados para enfrentar todas as agruras de uma guerra traiçoeira.

Como eu sentia orgulho quando via chegar os combatentes pára-quedistas que regressavam de mais uma missão. Era a sua nobreza de carácter que os elevava ao patamar dos melhores. Por breves instantes, uma lágrima traiçoeira, sustida a muito custo, fazia-me sentir muito pequenino.

Este primeiro embate, com combatentes valorosos, marcou-me para toda a vida. A chegada dos militares que eu já admirava e o sentir-me entre eles, fez-me respeitar sempre tudo e todos, até o IN (inimigo). Este também merecia o nosso respeito, pois estavam, em armas, defendendo as suas causas.

A maioria destes deslocados para a guerra, foi parar à 1ª Companhia de Caçadores Pára-quedistas (1ª CCP). Enquanto os meus camaradas passeavam pelo quartel conhecendo todos os seus cantos, eu aguardava a minha primeira triste e desalentada surpresa da minha vida como militar Pára-quedista. Já estava habituado e, por isso, já nem ligava quando volta e meia tinha de ir à tosquia por dá cá aquela palha. Era mais carecada menos carecada. Mas sempre que podia e me era permitido, manifestava a minha discordância. Gostei sempre de pensar e agir em consonância com o meu carácter.

…/… 

Continua

Anúncios
Explore posts in the same categories: ... da Guerra

4 comentários em “RETALHOS: A chegada e a ida para a guerra (II)”

  1. mlus Says:

    Olá Zé!
    Gostei de ler mais um dos retalhos do teu ciclo de vida. A fase em que te obrigaram a cumprir um serviço – militar – sem te oferecerem alternativa ou sequer darem-te a possibilidade de opinar. Agora, decidiste recordar e partilhar a experiência vivida. Em minha opinião, estás a transmiti-la de forma simples e despretensiosa permitindo ao leitor tornar-se, sem esforço, um espectador do filme em que és o actor principal.
    Muitos parabéns.

  2. ligia Says:

    Guerras………….por motivos pessoais,internacionais,religiosos.Corações dilacerados,almas rasgadas,vidas terminadas,mas o carater,o brio , presente,tornando um diferencial,uma estrela no meio de tantos que precisam.
    Ligia


  3. Olá Zé.

    Quão duras estas experiências enfrentadas por um jovem e por outros jovens com tanta coragem e consciência de todo o sofrimento e pêso que tudo isso representava. Mais uma vez deixo aqui registrada a minha admiração por ti, pelo teu caráter, e minha gratidão pela oportunidade de aprender sobre essa realidade que até pouco tempo tinha apenas uma vaga idéia.

    Beijos

    May

  4. Boy George Says:

    Oh wait. Yes, I have. I’m sorry, but I just don’t have it in me right now to type it all out again. Besides, it was just ramblings anyway. You didn’t want to hear me go on and on about this, right?


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: