RETALHOS: A chegada e a ida para a guerra (III)

Pela primeira vez, nesta “viagem de ida” a África, formámos na parada da companhia. Deram-nos as boas-vindas através do comandante da companhia, o Capitão Ferreira Pinto. Fisicamente era a antítese de um Tropa Especial e de um líder. Era um homem pequeno, sem carisma, sem aquele vozeirão típico e muitíssimo educado para os seus comandados. Deu as boas-vindas aos que chegavam à terra onde os ricos eram mais ricos e os pobres eram mais pobres. A mim, foi-me aplicado um castigo injusto, descabido e excessivamente penoso resultante do acontecido a bordo do navio que nos transportou para esta “guerra prometida”. Senti que o castigo não era mais do que um exemplo para todos, para que se percebesse o valor inestimável da disciplina. Recusei “denunciar” camaradas meus que se envolveram em desacatos durante a viagem (não esqueçamos que era uma viagem só com ida marcada e que alguns de nós não teriam vinda). Ainda nem sequer tinha a cabeça nem o organismo refeitos da viagem tormentosa de nove dias pelo mar, apanhei como castigo três dias seguidos de sentinela. Não tinha condições físicas nem psicológicas para cumprir de forma satisfatória a punição que me fora aplicada.

Era certo e seguro que não ia conseguir manter-me em alerta três dias seguidos. Senti-me como os prisioneiros no Tarrafal (terra da morte lenta), para onde o ditador Salazar enviava os que lutavam pela liberdade, neste país amordaçado, pobre e isolado. Aconteceu o que tanto temia. Ao segundo dia, fui apanhado a dormir, na torre de vigia, pelo sargento-da-guarda. Presumo que estava escondido na penumbra à espera que o sono me derrotasse. Subindo as poucas escadas encontrou-me ali sentado, abraçado à arma, dormitando de forma intermitente. De supetão, sacou-me a arma dos braços com medo que o meu acordar com um “intruso” à vista, me levasse a disparar por instinto.

Num estremunhar de sono, pânico e medo, muito medo, logo pensei:

“- Estou perdido, agora não me safo. Maldita hora que vim para a guerra”.

 

…/…

 

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5 comentários em “RETALHOS: A chegada e a ida para a guerra (III)”

  1. Silvia Says:

    Olá

    Estou aki mais uma vez a ler sobre a estoria
    e mais uma vez estou a gostar da leitura, como
    já disse, apesar de se tratar de uma Guerra

    Beijos e até a proxima, boa semana

  2. esmeralda Says:

    confesso que ainda não li tudo que escreveste Zé. Não porque não o desejasse mas por falta de tempo. Tenho lido alguns “retalhos” e outros guardo para ler mais tarde quando puder,. Mas digo-te, do que leio fico sempre a pensar que tens um dom natural para escrever e te expressar. consegues transportar-me a Africa, uma terra que não conheço mas que tu com teu dom bem a consegues retratar.
    Pergunto-me…ou antes pergunto-te: Já pensaste escrever um livro e edita-lo?
    É que muito honestamente da forma como escreves, não me parece ser de um amador mas sim de um profissional.
    Parabens querido amigo e… pensa nisso. beijinhos desta tua amiga Esmeralda!

  3. Maria Says:

    A guerra é isso mesmo uma injustiça.
    No caso de África como quem ia para combater nessa guerra, não ia por concordar ou não com ela, ia porque os mandavam, não pediam opinião, ainda mais injusta foi.
    E mais injusto ainda é o facto de hoje em dia já muitas pessoas se esqueceu desse tempo e que ainda hoje há pessoas (que foram soldado na altura) que estão a sofrer as consequências dessa geurra injusta.
    Obrigado por nos mostrares na primeira pessoa o que foi essa mesma injustiça.

    Um Beijo
    Maria (Montijo)


  4. Todos esses epsódios que narras, trazem para mim uma certeza cada vez maior de que nós, seres humanos, somos capazes de tudo, inclusive de atos “insanos”, como uma guerra, que leva homens a se submeterem à violências a troco de que mesmo?…
    ilusões, causas egóicas, onde o poderoso que decide, não se expõe, mas expõe seus irmãos de pátria a se violentarem, na maioria das vezes contra sua própria vontade, mas porque se vêem obrigados por um “dever patriótico”, contrariando seu instinto de conservação de vida, sua necessidade de conservar-se íntegro física e psicológicamente.

    Beijos

    May

  5. ligia Says:

    Além da guerra interna,de sentimentos contraditórios,nesses jovens ,que vêem a vida modificada pela defesa da pátria,preseenciam métodos terriveis na guerra entre compatriotas.Terrivel guerra!


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