O LIVRO DA MINHA INFÂNCIA

Naquele tempo…

Inocentemente vivíamos felizes, num regime repressivo que habilmente nos era imposto e em que o mais importante era Deus, a Pátria e a Família. Tempo em que os Senhores nos toldavam os horizontes pois não lhes interessava que bebêssemos sabedoria, em especial as mulheres, nascidas para serem mães e submissas ao marido.

Não deixa de ter graça o facto de nessa época, muito boa gente nos tratar carinhosamente de inocentes em vez de miúdos ou garotos. Lembro-me de ouvir muitas vezes a minha avó dizer:

– Deixai os inocentes brincar e divertirem-se, têm tempo de crescer…

E o meu pai quando alguém dava uma palmada ou um ralhete…

– Párem com isso, os inocentes não têm culpa.

Apesar de tudo éramos crianças alegres, cantarolávamos, dançávamos, jogávamos a macaca, o ringue e tantas vezes à saída da escola, qualquer soleira da porta de uma qualquer casa abandonada, servia para nos sentarmos, darmos uma trincadela na merenda que trazíamos no cesto e com os livros no regaço fazermos logo ali os deveres, não fosse o nosso precioso tempo escassear com alguma tarefa doméstica que nos esperava em casa.

As mães não iam buscar os filhos à escola, éramos entregues a nós próprios desde tenra idade, pois não havia os perigos que hoje tanto nos afligem e nos obrigam quase a sufocá-los com tantos cuidados.

A conversa já vai longa e eu ainda nem sequer fiz referência ao livro da minha infância; perdoai o desabafo, penso que haveis de perceber melhor porque o fiz, embora correndo o risco de vos entediar.

Eu era uma criança ávida e sequiosa de leitura e de saber. Assim como hoje por norma, as donas de casa fazem as compras para o mês, também eu fazia o mesmo com os livros. Mensalmente, numa determinada terça-feira era verem-me ansiosa, com um saco maior que eu (tantas vezes me chamavam dez réis de gente, por ser pequenina), sentada num banco do jardim, onde assentava arraiais junto dos arcos do Cine-Teatro.

Era um dia sagrado e por isso, vezes sem conta espreitava, à espera de ver aparecer ao longe o Sr. Pedro e o Sr. Castro (o meu muito obrigada se vivos estiverem ainda), numa carrinha nada bonita, mas cujo conteúdo era para mim como o alimento para o estômago; livros, livros e mais livros…Era uma Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkien.

Não fora isso, e não me teria embebedado de tanta prosa e poesia pois os cobres não abundavam, e os livros, que não os escolares, eram relegados para segundo plano.

Que saudades… (da biblioteca e dos livros, claro); e porque não, da minha meninice?

Apesar de tudo isto, dirvos-ei que, não foram os Nodis na Floresta ou na Praia (vi a praia pela primeira vez com dezasseis anos), ou o Pequenu com os Amigos, ou Pequeno na Casa Grande, ou tantos livros que o sr. Pedro me cedeu e me enchiam de sonho e fantasia, que me marcaram profundamente. Foi, isso sim, o “ abençoado” livro da terceira classe. Todos aqueles textos, ilustrados alguns apenas com uma figura relacionada com o tema, eu devorava e com eles dava largas à minha imaginação. A vida dos camponeses, das famílias, dos animais que nós bem conhecíamos, a pátria, os monumentos, eram retratados com uma beleza e um sentimento extremos.

Nas últimas páginas tinha o catecismo, apanágio de bons cristãos que éramos nessa época. Não era à toa que em todas as escolas existia um crucifixo por cima do quadro negro e a primeira coisa que fazíamos ao entrar na sala de aula, era rezar.

A capa, muito colorida, mostrava os meninos sorridentes empunhando as bandeiras de Portugal e da Mocidade Portuguesa (ossos do ofício, diria eu hoje).

No miolo do livro por entre as lições sobre o Presidente do Conselho, o Presidente da República e As cores da Bandeira Nacional, havia passagens lindas como O Poema da Neve, A Canção da Mãe, Os Serões na Aldeia, O Luar de Agosto, As Mondas e tantos outros…Tudo naquele livro tocava o mais profundo do meu coração. Talvez por isso recordo ainda de cor e salteados quase todos os textos do meu livro da terceira classe, LIVRO DA MINHA INFÂNCIA.

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Maria da Assunção Bernardo

 

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6 comentários em “O LIVRO DA MINHA INFÂNCIA”

  1. gim Says:

    Consegui recordar a minha própria infância.
    No nosso tempo, os manuais escolares mantinham-se em vigor durante décadas. Bons ou maus era por eles que aprendíamos a ler e a escrever. Volto a afirmar: a ler e a escrever. Mas a tradição já não é o que era…. basta estar atento a alguns jornais, revistas ou à legendagem da TV.
    Beijinhos

  2. Maria Says:

    Recordações muito bonitas.
    Naquele tempo como crianças que eramos, e de facto inocentes, nem nos aprecebiamos do que se estava a passar politicamente.
    Também não era permitido falar sobre a maioria dos assuntos, daí que as crianças crescessem sem se se aperceberem de muita coisa.
    Mas hoje, quando vejo na televisão pessoas que não sabem dizer o que é o 25 de Abril, nem porque o que é que se comemora nesse dia, fico muito triste, porque acho que uma vez que temos liberdade para nos expressar, não seja dito ás nossas crianças o valor que tem o 25 de Abril de 1974, e qual a razão porque é tão importante esse dia.
    Não deixem as crianças na ignorancia de temas tão importantes como a opressão do antigo regime e a liberdade de hoje. Só tendo conhecimento de um poderão dar o verdadeiro valor ao outro.
    VIVA A LIBERDADE

  3. maria maia Says:

    Caros amigos,

    “José Afonso”, figura ímpar da cultura portuguesa, que trilhou, desde sempre, um percurso de coerência na recusa permanente do caminho mais fácil, da acomodação, no combate ao fascismo salazarista e pela liberdade e democracia, é tema de um selo que está em 5º lugar. Precisamos do voto de todos para que se faça um selo em sua memória e na memória da Liberdade.
    Num período de exaltação de valores salazaristas, devemos contrapor com os nossos defensores de Abril!

    “Venham mais cinco!!
    Traz um amigo também!”

    VOTA [aqui]

    Abril, SEMPRE!!

    Davide da Costa


  4. Linda história, de uma recordação de quem com certeza ama a leitura, e a sua infância.
    É também por isso um belo texto, pelo seu conteúdo e pelo estilo da escritora. Continuo achando sempre um privilégio poder vir aqui e ler o que aqui é publicado.

    Beijos

    Gwen

  5. Zé Pedrulho Says:

    Sou desse tempo.
    E agora como é?
    Quem são os inocentes?
    Quem nos dá agora o ralhete e tabefe?
    Quem nos protege?
    Ficam estas questões.
    Julgo que TODOS sabemos responder a estas perguntas

  6. O. Neto Says:

    Parabéns Maria da Assunção, pelo texto… um texto simples, mas bonito…

    Também estudei por esse livro da 3ª classe e recordei a minha infância, passada em Angola, na cidade de Moçâmedes (agora Namibe).
    No colégio onde estudei, como aluna interna, até ao 5º ano, era proibido falar de política…
    Apercebia-me que algo se passava à minha volta, mas não sabia bem o quê… cochichámos umas com as outras… mas nada de concreto… só quando ia a casa, de férias, o meu pai, com a paciência que lhe era característica, e no trajecto que o/nos levava de casa para o barco (era pescador e acompanhava-o sempre até lá, todos os fins de tarde…) me contava as suas perocupações e respondia às minhas perguntas, que eu, ávida de saber, não me cansava de as fazer…
    “Agora já chega!”… dizia ele, “vai para casa… amanhã é outro dia”. Beijava-me com ternura e lá ia eu, tristonha e feliz ao mesmo tempo…
    E assim, e graças a ele, fui “acordando” e inteirando-me, a pouco e pouco, dos problemas da sociedade…
    O que hoje sou… devo ao meu PAI…


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