Mamãe executiva

– Acampar? De jeito nenhum! Você só tem 7 anos.

– Tenho 15, mãe!

– Mas já?! Não é possível! Tem certeza?

-Absoluta. É que nos meus últimos aniversários você estava trabalhando e esqueceu de ir.

-Esqueci, não. É que caíram em dia de semana. Se tivessem feito como eu sugeri…

-Você sugeriu que mudassem o dia do meu aniversário para o primeiro domingo de maio.

– Exacto. Domingo eu nunca trabalho.

-Papai contou que vocês se casaram num domingo e você trabalhou durante a cerimônia.

-Eu só assinei uns documentos enquanto o padre falava. Ele nem percebeu.

-E em vez do vovô… Você entrou na igreja de braço dado com o contador!

– Claro! O balanço da firma era para o dia seguinte!

– E a lua-de-mel…

-Tá. Eu não fui. Mas mandei o boy do escritório me representando.

Seu pai no começo resistiu, mas acabou aceitando.

– E quando eu nasci? Qual é a desculpa?

– Desculpa por quê? Você nasceu como qualquer criança.

– Nasci numa mesa de reuniões!

-Era numa reunião de directoria! Não podia sair assim, só porque a bolsa estourou.

 E você devia se orgulhar! Foi o presidente de uma grande multinacional que fez teu parto.

-Já sei. E a secretária cortou meu cordão umbilical com o clipe. Não brinca. Fiquei traumatizado .

-Eu fiquei. Você nasceu em cima de uma papelada importante. Quase perdi o emprego…

-E quando você foi me pegar na escola pela primeira vez? A vergonha que eu passei…

-Eu só estava com medo de não te reconhecer… Não te via fazia um tempinho…

-Tive que segurar um cartaz, que nem parente desconhecido em aeroporto, escrito “Eu sou o Tiago”.

– Tiago? Foi esse o nome que eu te dei?

-Que a moça do cartório me deu! Quando completei 8 anos e consegui ir sozinho a um tabelião.

Fiquei sem nome durante oito anos! Oito anos sendo chamado de pssit!!

– Pssit? Até que não é feio!

-Tudo por causa dessa porcaria do teu trabalho! Faz uma coisa.

Pra provar que você quer mudar, vem acampar comigo.

-Por que nós não acampamos lá no meu escritório?

Do lado do fax tem um espação. E umas samambaias artificiais.

Posso contratar algum estagiário para ficar coaxando pra gente.

– Pára de brincar. Larga tudo e vem comigo.

-Bom, se você tá insistindo tanto, eu… Então tá. Eu… Tudo bem, eu vou.

– Jura? Óptimo! Você vai adorar!

-Ah, difícil pensar em programa melhor.

Aquelas árvores, aqueles macacos guinchando, aquelas aranhas bacanas.

– Então está tudo certo.

-Só preciso saber assim, de um detalhe. A respeito do mato. Uma besteira.

– O quê? Se no mato tem mosquito? Se tem cobra?

– Não. Se no mato tem tomada.

Luís Fernando Veríssimo

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One Comment em “Mamãe executiva”


  1. É…chegamos a esse ponto? Vai ser daí pra pior. Não há retrocesso.
    Deixo um beijinho pra ti e um convite pra vir me ver

    Fica bem


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